Enchentes no Paquistão – A força das monções no continente asiático
Segundo a ONU, as chuvas que atingem o Paquistão desde o final de julho já provocaram pelo menos 1.600 mortes, afetando aproximadamente 14 milhões de pessoas. As enchentes na região são consideradas as piores nas últimas oito décadas, e os números do desastre já ultrapassaram os danos ocasionados pelo tsunami de 2004.
Para se ter uma ideia, as imagens a seguir, com aproximadamente um ano de diferença entre si, mostram o volume do Rio Indo durante o mesmo período de chuvas. A primeira imagem, de 1.º de agosto de 2009, apresenta o rio com volume aumentado considerado normal para a época.
Já a segunda imagem, capturada no dia 31 de julho de 2010, mostra o alargamento do curso do rio, resultado do volume muito acima da média, mesmo para o período das chuvas.
A elevação do nível dos rios levou à destruição de milhares de casas, pontes e estradas, dificultando os trabalhos de resgate, além de causar prejuízos em hospitais, prédios públicos e na infraestrutura geral. A grande densidade demográfica da região potencializa o desastre, preocupando a OMS (Organização Mundial da Saúde) com as possíveis epidemias relacionadas ao contato e à ingestão de água contaminada, como cólera, hepatite e diarreias.
Grande parte da população existente no Sudeste Asiático dedica-se a atividades ligadas à agricultura, vivendo nas planícies fluviais às margens dos principais rios, dependendo do regime de cheias e dos sedimentos deixados pelas inundações, que tornam os solos mais férteis.
Apesar de estar acima do volume considerado normal, a previsão aponta que o mês de agosto - período de chuvas torrenciais das monções de verão no Sudeste Asiático - terá mais chuvas, mantendo as características climáticas da região.
Clima de monções
O clima de monções é caracterizado pela mudança na direção dos ventos de acordo com as estações do ano. Diferentemente do que ocorre em outras regiões e/ou continentes do globo, a Ásia apresenta uma característica única, que é a diferença entre massa continental e massa oceânica na comparação entre os hemisférios. Observando o mapa do continente asiático, percebemos que toda a área continental está localizada no Hemisfério Norte; no Hemisfério Sul, sobram apenas parte da porção insular asiática e a maior parte do Oceano Índico. Essa diferença provoca a formação de zonas opostas de alta e baixa pressão nos hemisférios, de acordo com a estação do ano.
Durante o inverno no Hemisfério Norte, as baixas temperaturas no continente geram zonas de alta pressão atmosférica, “empurrando” o ar em direção ao Oceano Índico, onde as temperaturas mais elevadas criam zonas de baixa pressão. A consequência é um inverno mais seco, pois parte da umidade no continente é levada para o oceano.
Por outro lado, durante o verão a dinâmica nesse hemisfério se inverte. As elevadas temperaturas formam áreas de baixa pressão no continente e, consequentemente, as temperaturas mais baixas no Oceano Índico (cuja maior parte da massa líquida está localizada no Hemisfério Sul, onde é inverno) criam zonas de alta pressão, que sopram em direção ao continente, levando grande volume de umidade formada no oceano.
O resultado é o aumento nos índices pluviométricos, com chuvas torrenciais, que elevam rapidamente o nível dos rios que saem da calha normal, inundando as planícies fluviais onde vive grande parte da população asiática.
As monções são imprescindíveis no sul e no Sudeste Asiático, especialmente em países como Paquistão, Índia e Bangladesh, onde grande parte da população depende da agricultura para sobreviver. Mas a importância das monções vai além da sua influência em atividades econômicas como a prática agrícola, pois ela organiza muitos hábitos da população local.
Muito mais do que as chuvas torrenciais que naturalmente inundam as planícies ocupadas por pessoas que dependem da natureza para sobreviver, a pobreza e a falta de infraestrutura e de condições adequadas de vida para maior parte dos habitantes do Sudeste Asiático são as verdadeiras responsáveis pelos desastres ocorridos todos os anos na região.
Por: Claudio Lopes Takayasu